II Do imaginário nascem os primeiros traços
“O Plano-Piloto de Brasília nasceu do gesto primário de No entanto, mesmo antes de se conhecer o traçado vencedor do
quem assinala um lugar ou dele toma posse: dois eixos cru- Plano Piloto, as primeiras medidas de infra-estrutura foram toma-
zando-se em ângulo reto, ou seja, o próprio sinal da Cruz”. das já no mês de outubro de 1956, tais como: construção imediata
do aeroporto definitivo, com pista concretada de 3.300 m; me-
Lúcio Costa
lhoria das estradas para Anápolis e Goiânia; abertura de dezenas
(1956)
de estradas internas, para comunicação entre os diversos canteiros
de obras; construção dos prédios provisórios para a administração
da Novacap; construção de casas e alojamentos para funcionários
Em setembro de 1956, paralelamente a outras providências, publi-
e operários; aquisição de todo o material necessário para a ins-
cava-se o edital do concurso público para o Plano Piloto. Solicitava
talação da companhia, tanto no Planalto como nos escritórios do
o edital: “projeto básico da cidade, onde figurassem a localização
Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Goiânia; elaboração
dos elementos principais da estrutura urbana, dos diversos setores,
dos projetos do Palácio da Alvorada, do Hotel de Turismo (Brasília
centros, instalações e serviços, bem como suas interconexões, dis-
Palace Hotel), do Aeroporto de Brasília, da Usina do Paranoá, do
tribuição dos espaços livres e das vias de comunicação e memorial
Serviço de Águas e Esgotos; instalação de olarias e serrarias para as
descritivo”. O projeto apresentado pelo arquiteto e urbanista Lú-
demandas iniciais.
cio Costa seria o vencedor, em março de 1957, escolhido dentre as
26 propostas concorrentes.
Em sua mensagem de ano novo, de 1956 para 1957, JK declarou à
nação pelo rádio e pela TV: “Não sou o inventor de Brasília, mas no
No entanto, a escolha dividiu a opinião dos arquitetos. Para uns,
meu espírito se arraigou a convicção de que chegou a hora, obe-
não passava de um esboço, um rabisco, e sua inscrição não deve-
decendo ao que manda nossa Lei Magna, de praticarmos um ato
ria ter sido sequer aceita. Para outros, era simplesmente brilhante,
renovador, um ato político, criador, um ato que, impulsionado pelo
genial. Dizem, inclusive, que o representante do Instituto de Arqui-
crescimento nacional a que acabo de me referir, virá promover a
tetos do Brasil abandonou o júri por divergir do resultado, por ser
fundação de uma nova era para a nossa pátria”.
a proposta de Lúcio Costa apenas um rascunho. Os concorrentes
derrotados não se conformaram e criaram uma polêmica, que re-
Definitivamente, a Capital Federal começava a sair do imaginário
percutiu na imprensa da época.
para se tornar realidade.
Em contrapartida, sobre o Plano Piloto vencedor o júri destacou:
“seus elementos podem ser prontamente apreendidos; o plano é
claro, direto e fundamentalmente simples. Tem o espírito do sé-
culo XX; é novo; é livre e aberto; é disciplinado sem ser rígido”.
No plano, posteriormente, se incluiu a participação do arquiteto
Oscar Niemeyer, responsável pelo projeto dos principais edifícios
públicos. Juntos, Lúcio Costa e Niemeyer transformariam Brasília,
conforme a opinião de estudiosos, em um exemplo ímpar de arqui-
tetura caracterizada pela ousadia formal aliada à estética.
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